A gente achava que a casa deles era o lugar mais alto do mundo.
Três ou quatro lances de escadas para subir.
Um grande, um médio e um pequeno.
Batiam de alegria: As Aleluias! As Festas de Julho, a Páscoa, o Natal.
E batiam com muita tristeza nos enterros.
Nas alegrias batiam os três, juntos ou desencontrados, com batidas bem perto umas das outras, festivas.
As tristezas variavam. Quando pessoa mais velha, o grande soava muito lentamente. Se adulto o médio batia em um ritmo lento, porém bem compassado.
Talvez porque nós também éramos crianças, que profunda tristeza sentíamos quando batia o pequeno, com as batidas bem perto umas das outras. Quanta melancolia!
À meia noite ecoavam através do silêncio espalhado na cidade, no Natal e no Ano Novo.
Aos 16 de Julho, dia de nossa padroeira Nossa Senhora do Carmo, não batiam.
Cantavam. A partir das seis horas da manhã, de hora em hora. Que alegria!
Todos os dias na hora do Angelus. São seis horas. Ave Maria!
Os que tinham o privilégio de fazê-los cantar eram somente os coroinhas ou o sacristão. Me lembro bem do Rosalvo Fonseca.
De vez em quando, numa peripécia, a gente subia com eles, escondidos do Padre Waldyr e de nossos pais, que sempre tiveram medo de que caíssemos de lá ou nos machucássemos com os badalos.
Depois de muitos anos, calaram-se. A escada apodreceu e se tornou mais perigoso ainda subir ao campanário. A voz que a tudo anunciava, alta e de tonalidade tão marcada em nossa memória, foi substituída por gravações tocadas no auto-falante.
SINOS, que maravilha!
Fui ensinada de que toda vez que se ouve um sino, esteja onde estiver, a qualquer hora, rezamos e pedimos proteção.
Diz o sino. Bem- belém. Bem- belém. Pede a Deus que te proteja, e te faça homem de bem, belém bem.
Um inventário campanológico de nossa cidade.
Imagem de N. Sra. do Carmo como ornamento do Sino Garcia (médio), da Matriz. Foto de 23/3/2023.
Este espaço inaugura um registro dedicado à memória sonora de Luminárias, com foco nos sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo. Trata-se de um projeto em construção, que busca lançar os primeiros alicerces de um inventário campanológico da cidade, com finalidade histórica, cultural e de preservação da memória coletiva. Os dados aqui reunidos provêm de múltiplas fontes: documentos históricos, registros escritos e, de maneira muito especial, da memória oral dos fiéis de nossa comunidade.
Embora ainda haja muito a ser explorado e documentado, esta página representa um marco inicial — um convite à escuta atenta dos sons que moldam a identidade luminarense. Aqui, cada badalada é um eco de fé, tempo e história.
"Sonus campanarum vocat ad sacra, ad memoriam, ad vitam."
(O som dos sinos chama ao sagrado, à memória, à vida.)
1958 - Fundição dos três sinos da Matriz